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Uma Natal bem diferente da pacata cidadezinha que margeava o Rio Potengi naquele 28 de janeiro de 1943 serviu ontem de cenário para a recriação do célebre encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, e o presidente do Brasil, Getúlio Vargas, durante a Segunda Guerra Mundial. Um comboio de carros militares da época fez o trajeto de 17km entre a Rampa e a base aérea de Parnamirim, que 66 anos atrás abrigava a base militar americana que recebeu a visita dos dois presidentes num início de tarde de domingo. A encenação, que reuniu militares, entusiastas e testemunhas do fato histórico, foi promovida pela Fundação Rampa, uma organização criada em 2001 para preservar a cultura aeronáutica no Rio Grande do Norte.
Vargas e Roosevelt foram representados por dois atores que desfilaram num jipe Willis modelo 1951, semelhante ao veículo utilizado na visita de 43. Eles deixaram a rampa às 10h20 para fazer um trajeto que não coincide necessariamente com o original, já que hoje em dia não se sabe ao certo o caminho que foi percorrido pelas estadistas. Na encenação, o comboio passou pelo Canto do Mangue e pelas avenidas Hildebrando de Góes, Duque de Caxias, Ulisses Caldas, Floriano Peixoto, além da Rua Potengi, das avenidas Hermes da Fonseca e Salgado Filho, e da BR-101. O grupo chegou à base área às 11h10.
Pelo trajeto, os carros antigos e a fleuma dos atores caracterizados no carro aberto chamaram atenção dos natalenses, que paravam curiosos para ver o desfile.
A comemoração trouxe lembranças de juventude para personagens que viveram o data. Maria Lúcia Hipólito conta que saiu de casa para esperar os presidentes esquina da Rua João Pessoa com a Avenida Deodoro da Fonseca. ‘‘Quando eu vi, lá estavam Roosevelt, um homem grande, e Vargas, bem pequeno. lembro que pouca gente foi às ruas ver a passagem deles’’, confessa.
Já o escritor Pery Lamartine não conseguiu ver os presidentes. ‘‘Eu tinha uns 16 anos. Estava andando da Cidade Alta para a Ribeira e notei uma agitação nas ruas. Mas não cheguei a pegar a passagem do comboio’’, recorda.
O ex-combatente Fernando Dantas de Rezende, que ontem desfilou no jipe dos presidentes, servia na Rampa antes de ser enviado à Europa na Força Aérea Expedicionária (FEB). ‘‘Fico muito contente de reviver o momento 66 anos depois, até porque sou um dos últimos ex-combatentes vivos’’, destaca.
Antes do início do passeio, membros da fundação e militares descerraram na Rampa uma placa comemorativa aos 66 anos da visita de Roosevelt e Vargas. O diretor da fundação, Augusto Maranhão, informa que a instituição tem outros eventos agendados para os próximos meses. Ele explica que a instituição vai promover uma solenidade em 7 de fevereiro para relembrar a chegada dos primeiros hidroaviões da companhia alemã Lufthansa à chamada ‘‘Rampa Alemã’’, próxima ao Iate Clube, também na Segunda Guerra. Ele acrescenta que a instituição também vai se reunir em 12 de maio, por ocasião do aniversário da morte do aviador potiguar Augusto Severo, vítima de um acidente com seu dirigível Pax em Paris, no ano de 1905.
A fundação tem ainda projetos para filmar um documetário sobre a participação de Natal na guerra e de montar um espaço cultural sobre aviação. ‘‘Gostaríamos que o poder público colaborasse com a preservação de nossa memória. Até agora, isso não aconteceu’’, reclama.
Visita decisiva
A visita do presidente Roosevelt em Natal é considerada um marco decisivo para a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, já que àquela altura Vargas ainda estava reticente em mandar soldados brasieliros ao conflito. O presidente americano chegou a Natal na madrugada de 28 de fevereiro de 43, após uma reunião com os líderes Joseph Stalin, da União Soviética, e Winston Churchill, do Reino Unido, na cidade de Casablanca, no Marrocos.
‘‘A visita era segredo até para o comandante do Exército em Natal, general Cordeiro de Farias. Roosevelt chegou de madrugada num hidroavião e ficou hospedado no navio americano Humbolt, no Rio Potengi, aguardando o encontro com Getúlio, que só foi divulgado horas antes’’, conta o historiador Frederico Nicolau.
Já o pesquisador Rostand Medeiros lembra que a base americana Parnamirim Field era a maior dos ‘‘ianques’’ fora dos Estados Unidos e que a Rampa era um importante centro de chegadas e partidas de hidroaviões. ‘‘Nós da fundação tentamos preservar os fatos dessa época, que mudou Natal para sempre’’, diz.
GABRIEL TRIGUEIRO Da equipe do Diário de Natal |